Festival de Inverno – a arte e os artistas daqui

Rancho Queimado é um lugar por excelência inspirador: aqui temos as melhores condições para vivermos e isso se manifesta em muitos talentos que a terra possui.  Costumo afirmar que não temos artesãos, temos artistas. Eu mesmo, todos sabem que sou hiperativo, como costumo me descrever sou “Professor, artista, escritor e poeta; minha mente ferve em borbotões de pura explosão imaginética que desabrocham e florescem no meu jardim particular…” E isso se reflete na minha vida, no meu lar, nos meus amigos.

E isso é inspiração que vem de berço: mamãe, funcionária pública, sempre leu, pintou e bordou, tricotou e costurou. Tenho orgulho hoje em fazer minha coleção particular (como um curador) e preservar trabalhos que outrora ela fizera e que por motivos de saúde já não é possível que se façam mais. Sãos os trabalhos mais lindos que alguém pode ter…

Também papai é assim: um senhor que não para – funcionário público, apicultor, artista e jardineiro, etc. Recentemente seu trabalho foi reconhecido como Patrimônio Imaterial (a arte de saber fazer, que para preservá-la deve ser ensinada de geração em geração). Fica a responsabilidade para eu aprender…

Meu pai, o Senhor Geraldo Bauer, trabalha no Museu Hercílio Luz desde 1985 e mesmo assim sempre encontrou tempo pra se dedicar à arte que já aprendeu com meu avô. São cestos de cipó e taquara – bem tramados e orquestrados, formam um composê harmonioso e que máquina alguma possa fazer. Há todo um ritual: e isso que é o importante pra que seja considerado Patrimônio Imaterial. Deve-se colher a matéria prima na Lua adequada (esqueci de mencionar, mas meu pai é como aqueles almanaques: observa a Lua certa pra tudo: sabe se chove, sabe quando esfriará, etc.).

A arte do meu pai é pura explosão imaginética, assim como a minha!

Surpreso, fiquei ao visitá-lo em um final de semana e ver que ele aproveitou as férias que gozava, pra encher seu atelier de muitas peças. Deu-me um estalo e compreendi que arte além de ser um dom, é um dom herdado. Vi que se eu hoje sou artista, tenho essa veia herdada dos meus pais, que sempre foram tão produtores dessas imaginações – e olha que, às vezes, papai e mamãe me consideravam louco…

O atelier do meu pai está explodindo de tantas criações

Bicicletas, carrinhos-de-mão, cestos, cachepôs, castiçais...

Tenho orgulho de mim, por ser e me tornar o que sou. Meus talentos são múltiplos e sem modéstia hoje posso afirmar isso! Herdei dos meus pais: eu pinto, danço, bordo, escrevo, estudo, dou aulas… Nem sei por onde começo o meu currículo!

E atualmente eu penso em como manter viva essa chama artística, um resgate às tradições, uma invenção dessas tradições ou simplesmente uma representação simbólica delas. Trabalho para fomentar a arte e os costumes de nossos antepassados, imigrantes alemães – seja na pintura Bauernmalerei, seja na dança folclórica, nos hábitos culinários, etc. Como mencionei anteriormente: minha mente ferve em explosões de ideias!

Bicicleta decorativa feita em madeira e cipó

O tempo é agora: mais do que nunca se discute arte e artesanato; fala-se em cultura, turismo e sustentabilidade. Mas o que realmente temos feito? Ou o que nossos políticos fazem? Somos uma minoria que começa a aparecer e, às vezes, incomodar quem se sente “dono” da cidade. E isso incomoda porque mesmo vivendo ao nosso modo, estamos aí: em evidência, plantando e colhendo amor, fraternidade e respeito! Luto por um Rancho Queimado mais justo, mais ecológico – não só nos discursos, mas nas práticas também. E isso faço dando os meus exemplos. “O exemplo é o nosso maior legado”! Está aí a Festa do Morango que prova isso – uma invenção de tradição e que oportunizou e oportuniza uma IDENTIDADE ao povo daqui.

Quantos são os talentos que temos? Listem-me e se surpreenderão! E mais uma vez aquela velha discussão: a cultura e o turismo daqui andam na contramão- divulgam o maior e esquecem do melhor. Vem aí mais uma vez um Festival de Inverno, que não se consolida justo porque gastam fortunas com artistas externos, enquanto a essência seria valorizar meu pai, o Senhor Fridolino Scharf (que é o único ser que faz gamelas nesse Estado!), a Vó Nair que caracterizou e moldou a palha de milho como arte típica, seu Valdevino e a arte das suas facas e muitos outros que sempre andam e trabalham às escuras. Os méritos são aos de fora, aqui não existem artistas.

Nossa amiga pintora, Tatiana Heinz, representa Rancho Queimado e o Estado de Santa Catarina, em exposição na Europa – Circuito Internacional de Arte Brasileira.  Algum gestor público reconhece, parabeniza ou divulga?

Parabéns, Tati pelo talento e pelo pertencimento e divulgação de Rancho Queimado

óleo sobre tela que a artista Tatiana Heinz faz-se presente no Circuito Internacional

E o reconhecimento? Cabe aos gestores divulgarem, comprando e vendendo nossa arte – isso não é mendigar, isso é valorizar e fomentar o VERDADEIRO TURISMO E CULTURA.  Por que não fazem feiras e mostras culturais com os artistas daqui? Nunca se fazem presentes em eventos desse gênero. Mas isso é outra conversa e assunto pra mais uma matéria! E aquela Praça Coberta, obsoleta que não utilizam com os princípios inicialmente divulgados (até a cor tão criticada acham que o povo esqueceu. Foram palavras do prefeito da época: “-Ela não será azul, vamos mudar…” – está documentado!) Infelizmente o povo esquece: e assim Rancho Queimado sobrevive às mínguas há alguns anos.

Sinceramente, ouço notícias de mais um Festival de Inverno. Mais uma vez será um desastre anunciado se não me ouvirem: PRECISAMOS VALORIZAR O MELHOR E NÃO O MAIOR. Um evento que nunca se consolidou e é um estigma da atual administração. Ainda não fomentaram e organizaram direito os outros eventos e querem mais um!

Não pretendo semear a discórdia ou torcer contra esse evento, pelo contrário – torço para que dê certo, mas por favor abram seus olhos, gestores públicos, e valorizem nosso artistas que são muitos. Há os gaiteiros, os violoneiros, os pianistas, os dançarinos, os poetas e poetisas, os artistas e artesãos, as quituteiras, enfim muita gente. Rancho Queimado é um celeiro cultural, artístico e intelectual – enxerguem, não apenas em discursos ruços, mas em práticas e ações de valorização ao povo daqui.

Façamos sim o MAIOR FESTIVAL DE INVERNO, mas valorizando o que é nosso,o que é daqui, o nativo. Sem essa visão, o festival será como os anteriores: uma tragédia e que nunca soubemos onde foi parar o dinheiro! É isso!


Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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