A invenção da tradição

A invenção da tradição

Este título pode causar estranheza, mas, hoje, já é pouco original. Em seus trabalhos, Foucault, cunhou a noção de que não existe natureza nos objetos culturais e intelectuais. Os fenômenos culturais passaram a ser entendidos como resultado de um processo de construção.  A palavra invenção, que era reservada para as descobertas tecnológicas, ultimamente tem sido usada para descrever diversos fenômenos históricos, tais como a infância , a adolescência, a velhice, a maternidade, a subjetividade, a sexualidade, a identidade, a nacionalidade, a região, etc, tidas como criações culturais.

Eric Hobsbawm menciona a “tradição inventada”, mostrando que estas são reações a situações novas que, ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição. Inventar tradições significa criar rituais e regras que busquem traçar uma continuidade com o passado, criando uma memória que funciona como um estoque de lembranças. Nem tudo que a “tradição inventada” abarca é realmente passado; várias de suas manifestações são recentes, mas surgem para as pessoas como algo há muito existente.

Agora, contextualizado, justifico a invenção de uma tradição: a Festa do Morango de Rancho Queimado. Da mesma forma que a cultura, a festa (que se diz germânica) é uma obra em movimento. Como num romance ou num poema, há um trabalho de re-criação de elementos constitutivos da vida cotidiana, difusos entre o que é visível, palpável, e o que é imaginário, criado de imagens, representações, sonhos, histórias, tradições – “tradições inventadas” -, espírito de comunidade, de passado comum.

Resgatar a cultura é objetivo difícil de alcançar. O que fizemos é re-criar uma cultura, fazendo uso de ideias imagéticas

Resgatar a cultura é objetivo difícil de alcançar. O que fizemos é re-criar uma cultura, fazendo uso de ideias imagéticas

A alma da festa não tem música alemã; as cores da festa não são alemãs, tão pouco comidas, apresentações e tantas outras invenções de apelo germânico. Trata-se apenas de um encontro com uma cultura imagética. O hiper-realismo, formando uma rede de remetimentos, produz uma realidade tão perfeita ao ponto de gritar aos quatros ventos a própria ficção. A reverência kitsch que toma conta dos visitantes excitados por um encontro com o passado mágico, oculta a própria magia deste passado. Magia, porque aparece como mágica, agora, neste instante presente. Vende-se a ideia de que pessoas com trajes típicos vivem dessa maneira;  eles estão ali apenas mascarados para aquele momento de festa.

Assim, o espetáculo da cultura se revela ao turista, portanto, como “autêntico”.  O turista, com seu olhar, comprometido, não se surpreende, apenas se extasia diante da luminosidade dos cenários bem montados prometidos pela propaganda, nos quais não há o que decifrar, porque o que é pra ser visto, já está exposto nos signos e ícones que formam a representação, legitimando o “artificial” como “real”.

O encontro com a imaginação é suscitado por todos os sentidos. Um desfile, histórico, presentifica o passado como num texto de História. Mulheres e homens, idosos, adultos, jovens, adolescentes crianças e bebês transformam seus corpos em “manequins”, vestidos não só com a indumentária típica da cultura, mas também com os papéis dos sujeitos da história local, como num museu de cera. O desfile se integra à cidade revestida pelos emblemas culturais.

O retorno a um passado encantado é então vivido pelo espectador, que procura por um espetáculo autêntico, e pelos participantes que, por sua ascendência referenciada na imigração alemã, buscam a festa como forma de realizar sua utopia romântica de volta ao passado. Entram em voga as narrativas populares e as lendas. O plágio arquitetônico.  Mas os românticos reencontram esse passado da mesma maneira que os humanistas haviam reencontrado a Antiguidade: como definitivamente perdida.

Na busca por uma identidade original, a festa e o seu povo tornam-se descontextuais

Na busca por uma identidade original, a festa e o seu povo tornam-se descontextuais

Na Festa do Morango, o passado é avivado, realmente ganha vida, embora para uma nova vida, com outras formas, outras estéticas, outros anseios, outros sons, outros odores, outros paladares, outra história. O passado ganha vida agindo no presente para dar vida a outra forma de vida. Logo, não é um novo romantismo, mas um realismo feito de imagens do passado, as quais reencantam o presente.

E nesse contexto, a festa  retoma o passado presentificando-o. O presente é o tempo da valorização do passado dentro da perspectiva do relativismo cultural. É o tempo de um novo folclorismo e da cultura como espetáculo. E o futuro é o tempo da aposta no investimento, a expectativa do retorno de capital. E esse futuro, projetado há vinte anos, é hoje o presente que temos: o invenção de uma tradição – Festa do Morango – deu reconhecimento à cidade, geriu a indústria sem chaminés – turismo, agregou valor ao produto local e elevou Rancho Queimado a destino indutor de turismo no Brasil.

A cultura, sem uma essência apriorística, é um processo dinâmico, incessante, de construção e reconstrução, de invenção e reinvenção. A Festa do Morango, uma tradição inventada, criou uma cidade para ser vendida enquanto imagem. No entanto, os “fazedores” da festa prometeram o retorno da história, da tradição e dos costumes. Num trabalho esmerado de recolha dos vestígios culturais, alguns já extintos e outros ainda vivos, de criação de tradições, de montagens de cenários, compuseram a festa da tradição, amalgamando passado, presente e futuro.

A História é feita pelas pessoas, a cada dia, cheia de encruzilhadas, mesmo que não gostemos, pode ser confortador ao concluir-se que nada está traçado como destino. São puras invencionices de um mundo capitalista moderno!

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Referências  Bibliográficas

FLORES, Maria Bernadete Ramos. Oktoberfest – Turismo, festa e cultura na estação do chopp. Florianópolis, Letras Contemporâneas, 1997.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. 3 vols. 6ª ed. Rio de Janeiro, Graal, 1984.

________ As palavras e as coisas. 4ª ed. São Paulo, Martins Fontes, 1987.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, Vértice, 1990.

HOBSBAWM, Eric & RANGER Terence (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.

Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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