Agosto, um cachorro muito louco

Simone Curi*

Enquanto preparava hoje o almoço, conversava com minhas filhas sobre as aulas recomeçarem no preciso primeiro dia de agosto. Então, a menor delas diz “agosto combina com desgosto”, e pergunta se um tem a ver com o outro. Olho para esse serzinho no meio da cozinha, o que sabe ela sobre a palavra desgosto? Ela, cheia de seriedade, na expressão que encontrou enquanto espera as respostas do mundo, insiste: – tem, mãe?

Eu, assim interpelada, sempre vou ao encontro do outro, não sei muito como escapar, e a menininha que eu conheço não é de aceitar acordo rápido. E ainda que o feijão estivesse dando sinal que o deserto se acercava, enfrento. Tem. Agosto tem a ver com desgosto, mas acho que o sentido não tenha sido dado pela rima, e sim por uma repetição ou acúmulo de eventos pesarosos, agourentos, catastróficos, assim as gentes se convenceram que o mês é de maus presságios… e fixaram os males ao agosto. Ou o contrário? Tudo começa na brincadeira da sonoridade, da rima, logo então todo o macabro coincide com o mês destinado…

Mas, por não ter pensado antes de escolher as palavras, tenho que explicar os pesares, os agouros, as catástrofes, os presságios, o macabro… cada vez mais longo o negócio. Nisso, entra a maiorzinha, para ajudar, com sua visão poética da vida, acrescenta que o desgosto não tem rosto, que não escolhe e não é escolhido. Ele chega e ponto.

Será que a criança entendeu melhor que todos nós?

Penso nas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki – justamente, no mês de agosto! Na extensão da dor desse povo produzida pela sofisticação tecnológica, lembro da foto da menina vietnamita, correndo nua em sua dor, vítima do desamparo e indiferença do mundo. O horror ali tem um rosto, para sempre na minha e na memória coletiva, decalcado como exemplo do mal sem nome, e a cada dia renovado em outros rostos. Para alguns pensadores, o mal radical é o mal impingido à criança, por ela não ter condições de elaborar o próprio sofrimento. Mas o mal não aparece, ele desliza ali em silêncio, se dissipa invisível. O mal, afinal, onde está?

Em Hitler? Ele que ao subir ao poder (pasmem, também num mês de agosto!) leva junto o mal, mas que não se dá a ver naquele rosto (também vivo na memória), ao contrário, ele foi escolhido pelo carisma. Esse rosto com nome assina o ato da mais extrema barbárie, o da desumanização do homem, como diz Hanna Arendt, e nos vexa e empobrece em nossa própria condição. Mas calo agora aqui no entorno infantil os fatos, o desmundo uma hora os revelará a elas. Penso que também é do nível do horror impor as imagens de horror às crianças. Nada de bom se ensina na exibição sem fim das aberrações que pode o homem, seja na demostração de impotência ou de poder. Só enfraquece a vontade de outro mundo.

Mas antes que se entre demais nas convicções ou nas superstições, me ocorre algo bom de lembrar. Uma vez conheci um cachorro chamado Agosto. Ele era mais uma figura que um animal, do tipo que morde o próprio rabo, que prefere pizza a qualquer outro alimento e, como um cavalo-marinho, é fiel a sua única companheira… Será da responsabilidade dele agosto levar o nome de mês do cachorro louco. Ou o contrário?

Houve tempo de salvar a conversa, o almoço, e ainda de escolher entre o desgostoso agosto e a flor de maio. Eu fico com esta delicada e efêmera manifestação da vida, porque eu gosto mesmo é de plantas.

“…flor de maio. Eu fico com esta delicada e efêmera manifestação da vida, porque eu gosto mesmo é de plantas.”

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*Simone Curi – pesquisadora/UFSC, é adepta a todos incentivos que incrementam sistemas ambientalmente sustentáveis e socialmente justos
Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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