HÁ MAIS DE MEIO SÉCULO O TÚMULO DE MARIA AMIDA ATRAI DEVOTOS A TAQUARAS


“Maria Amida dormindo
O seu sono descansado
Quando se acordou, olhou
Esbarrou com os malvados
Gritou para o seu patrão
Eles mataram-na com machado.”

Há cinquenta e cinco anos ocorreu um assassinato, bárbaro e intrigante, e que aos poucos vai se apagando da História de Rancho Queimado. Era novembro de 1961 e em Santo Amaro da Imperatriz, naquela noite foi brutalmente morta a golpes de machado Maria Amida Kamers – que a posteriori ficou conhecida como a mártir da virgindade

Maria Amida era uma jovem bela, cheia de vida e de consistentes princípios religiosos, nascida na localidade de Rio Acima, no Distrito de Taquaras. A moça queria estudar e para isso precisou se submeter ao trabalho de doméstica na casa de importantes comerciantes do município vizinho, Santo Amaro da Imperatriz.

Segundo relatos, houve por aqueles tempos muitas chuvas e enchentes e uma onda de assaltos se espalhou por Santo Amaro. A casa onde Maria Amida trabalhava também não foi poupada dos saques. Os ladrões adentraram a residência e, nela, o quarto onde a jovem dormia e, de posse de um machado roubado de uma das casas assaltadas, atacaram barbaramente Maria Amida, deixando seu crânio esfacelado, ao golpe de cinco machadadas.

Na manhã seguinte a notícia, em poucos minutos, tomou toda a população de Santo Amaro; e muitos vieram pessoalmente inteirar-se do acontecido. O povo se revoltou e queriam saber quem fizera tal crueldade. Por que motivo alguém teria tirado a vida de Maria Amida? À época surgiram duas hipóteses: a de que a jovem tivesse resistido a uma tentativa de estupro ou a de que ela tivesse reconhecido os assaltantes.

Maria Amida Kamers ficou conhecida como a “mártir da virgindade”

 

Após necropsia e atestada pelo legista a sua morte, Maria Amida foi velada em Santo Amaro e mais adiante seu corpo seguiu serra acima até a casa dos seus pais, em Rio Acima, Taquaras, onde foi velado por toda a madrugada e sepultado no dia seguinte no cemitério da igreja católica. Os boatos da sua resistência ao estupro ganhavam forças e muitos afirmavam que durante seu velório, jorrava sangue do corpo da moça quando o suposto assassino se aproximava.

Na missa de sétimo dia, milhares de pessoas provenientes de diversas localidades de redondeza compareceram e a missa precisou ser campal porque a Igreja dedicada a São Bonifácio não comportou tantas pessoas. Bernadete Hillesheim Horr, então com 13 anos de idade e residente em Santa Isabel, em Águas Mornas, participou da Missa de sétimo dia. Hoje ela tem 68 anos e afirma: “Eu e meus irmãos juntamente com muitos moradores de Santa Isabel lotamos um caminhão e fomos a Taquaras participar da missa de sétimo dia. A viagem foi cansativa, mas todos foram com muita fé e devoção. Muitas pessoas das mais diversas localidades foram participar. Eram muitos os caminhões e ônibus utilizados para o transporte. Acredito que Taquaras nunca reuniu num só dia tanta gente. Foi uma missa bonita mas todos estávamos muito tristes com o assassinato de Maria Amida. Hoje ela está no céu e intercede por todos nós”, finaliza Dona Bernandete.

E do inquérito policial, após esse episódio, pouco se soube. Talvez tenha sido arquivado… Corre evidências de que o crime foi motivado por amor passional e o assassino, filho de influentes da cidade vizinha, forjou a própria morte com a ajuda das autoridades e sumiu da região por longos anos.

Nesse ínterim, a notícia do acontecido se espalhou e Maria Amida se tornou objeto de devoção de centenas de pessoas que mensalmente se dirigiam ao seu túmulo, suplicando sua intercessão. O tempo foi passando e a memória de Maria Amida, aliada à versão de que teria preferido morrer a perder a virgindade, tomava proporções sempre maiores; inclusive uma fotografia sua foi reproduzida e distribuída entre os interessados. Todo mundo queria uma foto de Amida; quase todas as casas, em Santo Amaro, tinham uma fotografia dela para reverenciar sua memória.

Esquecido pelo tempo, encoberto pelas autoridades, somente os de mais idade é que se lembram desses fatos dos quais muitos foram testemunhas oculares. Hoje os meios de comunicações sociais constantemente revisitam essa trágica história informando as novas gerações contribuindo, sobremaneira, para ampliar e consolidar a devoção àquela que teria dado a vida pela castidade. Passados 55 anos o túmulo de Maria Amida está lá, no cemitério católico de Taquaras, e ali podemos perceber muitas manifestações de fé e devoção à moça, através de ex-votos, que ficou conhecida como a mártir da virgindade, considerada por muitos uma santa catarinense.

São muitas as pessoas que afirmam terem recebido graças e favores por intercessão de Maria Amida e a ela são agradecidas. E se esse movimento se ampliar Taquaras poderá ter uma beata e quem sabe uma santa. O tempo dará a resposta ao clamor e à fé na intercessão de Maria Amida.

No seu túmulo podemos encontrar muitas placas de graças alcançadas

Esquecida e apagada pelo tempo, essa é mais uma história sepultada, daquelas que jazem esquecidas pelo tempo, no cemitério de Taquaras

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*Toni Vidal Jochem, historiador e escritor,membro da Academia de Letras de
Santo Amaro da Imperatriz, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico
de Santa Catarina e funcionário da Prefeitura Municipal de Águas Mornas.
Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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