Conto do Rancho, por Simone Curi

Conto do Rancho, por Simone Curi
Simone Curi*
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Difícil a tarefa de falar de uma pessoa que sempre admirei, seja na minha vida acadêmica como minha grande mestre, seja pelos seus textos bem escritos. Assim é a Professora Simone Curi – uma mulher invejável e que eu agora tenho o prazer de reencontrar. Estava escrito: o acaso nos aproximou! De um simples esbarrão no café da UFSC, o seu contato com o Portal do Rancho (sem ao menos eu dizer que existia), da sua escolha em morar aqui em Rancho Queimado… foi sintonia do destino, será? Creio que não!

Pessoas com os mesmos propósitos e despropósitos se encontram por algum motivo. E Simone, suas adoradas filhas, eu e toda a equipe do Portal nos encontramos porque temos algo em comum: oferecer aos nossos colegas um mundo mais fraterno, humano e justo – ambientalmente sustentável. Obrigado, querida professora e amiga, pelo prazer em se inspirar – num simples café na minha casa – e escrever um “Conto do Rancho”. É isso!

Jonei Bauer

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Conto do Rancho

Quantas vezes pensou em ir embora? Sair pela estrada e esquecer aquela terra?

Na verdade, uma vez só, de verdade. Quando brigou com Ana Rosa, justamente, porque ela desejava outra vida. Uma casa boa, lá na cidade, perto do comércio, longe de toda parentada. Ana Rosa não entendia, não entendia isso dele ficar perto do pai. O pai velho que não oferecia nenhum futuro para eles, dizia quando ficava brava. Por pouco não foram.

Mas era passado, Ana Rosa não existia mais.

Lá em cima, quase na estrada a lavoura abandonada, só as estacas de bambu enegrecido.  Desde o último  inverno, a lavoura não era mais uma preocupação, nem o gado, nem nenhuma criação. Nada. Ele agora só olhava uma coisa, a terra que já não era a mesma.

Ficou pensando quieto na sala meio aquecida pelo calor que vinha da cozinha, outra vida, outra vida. Outra vida estava aparecendo por ali, o povo da cidade se espalhando pelas terras, outra gente, outro jeito de conversar, de plantar, de levantar as casas.

Olhou para o fogão à lenha que ficava no outro canto da cozinha, quem fez foi o pai, a casa toda, pensando bem, ele apenas ajudou. Tudo quem planejava era o pai, ele ajudava. O pai tinha cabeça, resolvia qualquer problema, de tudo um pouco o pai sabia. Com ele não tinha isso de depois, de muito trabalho,  de cansaço. A vida do velho sempre foi o serviço. Ele como filho, ajudava, mas sabia que não tinha nenhum dom especial. Acompanhava o pai, uma sombra quieta.

O fogão à lenha no outro canto da cozinha, quem fez foi o pai…

Ana Rosa gostava do seu homem assim, absorvido pelos próprios pensamentos, meio quieto, meio inquieto. Inquieto porque tinha hora que ele gostava de contar suas histórias. Ele conhecia tanta história, contada pelo outros, inventada por ele mesmo. Ana Rosa, o pai, a mãe  escutavam até tarde a fala mansa dele, ao redor do fogão, toda noite, depois de comerem. Pediam sempre a história do leão matado nos matos de Rio Bonito, ele sabia cada detalhe, dos medos e da coragem dos homens. Também gostavam de ouvir a do bugre vingador, que aparecia nas noites frias para vingar a tribo dele…

Agora, o silêncio pela casa. Ano cheio de tristeza silenciosa. Só os pios das aves noturnas, o barulho do vento seco, os sons abafados e sem sentido na noite. Dentro da cabeça, silêncio.

Ele se sentia oco por dentro, sem história para lembrar, sem vontade de lembrar, quando deixava o pensamento correr, vinha Ana Rosa, de olhos brilhantes, deitada na cama, quase louca gesticulando no ar, para os espíritos… Não gostava dessa lembrança, lembrança sem cor, só a danação de dor quente e silenciosa.

Então, ouviu baterem forte na janela, sem susto, ele se levantou e abriu a porta, parado ali perguntou baixo quem era.

–                    Maninho.

Entraram e sentaram ao lado do fogão, esfregando as mãos, Maninho contou que vinha porque o pai tinha piorado. Berrando feito burro bravo, falava com os mortos, com a finada Sofia, com o Bugre Velho, com Donana, até com o finadinho Juliano. Cena pavorosa de se ver.

Ele escutou, e sabia o que era, o pai lidava na roça com Ana Rosa, a plantação tinha enlouquecido os dois. Agora era a vez do pai, ele já sabia. O pai, meses depois que a nora morreu, caiu cabisbaixo, sem força nem para sair da cama. Maninho levou ele para casa, para receber os cuidados, já que a mãe estava fraca e ele mesmo assim de jeito esquisito, como dizia o Maninho.

Ele acalmou o irmão, dizendo que ia passar, mas ele sabia, ele tinha falado com o médico da cidade,   a gente da lavoura ia … O irmão interrompeu seu pensamento, olha, o pai tá ruim mesmo. Meio perdido com a mansidão dele, não sabia se se fiava em que tudo ia ficar bem. Coçou a cabeça, balançou o corpo magro pra frente pra trás, levantou e disse que já ia, Nadira precisava dele lá. O pai tinha acordado as crianças com a gritaria, ele ia para casa, só tinha vindo para avisar.

Maninho saiu, olhou para o irmão sentado lá dentro, parecia um fantasma. Eta, perder a mulher, eta, quem adivinhava, Ana Rosa tão cheia de vida. Se perdeu no mato escuro, pensando que a família estava se acabando, que Nadira estava esperando, que talvez o pai não passasse daquela noite.

Ele viu o irmão se afastando, levantou-se e fechou a porta. O calor voltou, o pai, Ana Rosa…ele também ia embora, bem cedo, amanhã. Outra vida.

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*Simone Curi – pesquisadora/UFSC, é adepta a todos incentivos que incrementam sistemas ambientalmente sustentáveis e socialmente justos

Simone Curi, bem-vinda ao Portal e a Rancho Queimado

Foto da home: óleo sobre tela de Tatiana Heinz

Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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