Luz da Páscoa

Luz da Páscoa

*Simone Curi

Um dia, trabalhando no meu jardim, ouvi um chamado. Mas não em voz, e sim, em luz.

Dentre as plantas, um pezinho de limão com pouco mais de um metro e, micro flores desabrochantes nas pontas, revelava um pequeno e insistente foco de luz… chamando-me toda em atenção para ele. Pega assim de surpresa, porque o dia cinza de outono era inequívoco sobre a incidência luminosa, me aproximei. O fachinho ali permaneceu, um descontínuo lusco-fusco… Quase acostumada com os inexplicáveis fenômenos da vida, depois de um tempo tentando entender, entrei na casa, entre os afazeres infinitos que exigem o dia a dia, me esqueci do acontecido.

Noutra ocasião, caminhando com as crianças por uma trilha do parque da cidade, encontramos, não sem susto, uns gnomos pelo caminho. Eles eram verdadeiros, no sentido que verdadeiro é “aquilo que apalpamos e podemos confirmar a existência com as outras pessoas”… e eram lindos! Estavam dispostos entre as árvores, uns como se descansassem, outros como se espiassem em espreita os caminhantes da trilha. Mas como era feriado de Páscoa, domingo de manhã, não havia quase ninguém no parque, exceto nós (todos os seres viventes estariam naquele momento atracados aos chocolates?).

Então, eu e as meninas presenteadas assim pelo acaso!?! acaso ou teria uma criança, precipitada em outro jogo, esquecido seus maravilhosos gnomos articulados, ali? Ou éramos objetos de um filme sobre a reação dos que se deparavam com o inusitado da Páscoa – que não os tradicionais coelhos carregadores de gigantes e não saciantes ovos? Ou alguém queria testar a honestidade da nossa família? E como não dizer que, a cada um de nós, ocorreu levar para sempre os representantes daquele reino para casa? Pois eles, como nós, os ´solitários´ do parque, não desejavam confraternizar a data de outro modo?

Sei que conjecturamos em silêncio, enquanto vivíamos em êxtase aquilo que nos ofertou o destino. Rimos do gnomo muito gordo estatelado entre as folhas secas, como saturado por uma vida plena. Aproximamo-nos da senhora gnomo, muito velha e arisca em sua roupa escarlate, sorrindo para dentro, nos olhava, ali, agachadas, como se visse nossas almas. Tocamos um, sobre um galho, que simulava uma destreza que parecia de fato não ter, ajeitando-o reverenciamos a sua deidade. E, respeitamos, em distância, aquele que parecia ser verdadeiramente o sábio gnomo-mor, ainda que menor, frágil e quase etéreo, era uma criança senil, amorosa e desprendida.

Ainda incertas se deveríamos abandoná-los, agora eles, ao próprio destino, enquanto nos afastávamos na trilha, pensando: – e se alguém realiza o que desejamos por um átimo de consciência?

Mas ao chegar ao coração do parque já éramos de novo a família de domingo de Páscoa sem coelhos, as crianças perderam-se entre os brinquedos, balançando e subindo nas árvores. Eu, quase acostumada aos milagres sem explicação, pequei o livro da bolsa e envolvi-me noutro universo. Na volta, tomamos a trilha de cima, lembramos dos gnomos enormes e luxuosos, eles, em suas roupas aveludadas, eram como os ovos em seus papéis brilhantes. Luz da Páscoa.

Não sei bem porquê mas ali me lembrei que um dos significados do meu nome é aquela que escuta.

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*Simone Curi – pesquisadora/UFSC, é adepta a todos incentivos que incrementam sistemas ambientalmente sustentáveis e socialmente justos

Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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