Nova Veneza (SC) e o seu Carnevale

Nova Veneza (SC) e o seu Carnevale

Nas duas últimas décadas se observou uma vertente de valorização ao estilo simples do homem do campo e do retrato do cotidiano rural, denominada por “indústria sem chaminés“. O turismo teve a sua força motriz na valorização desses lugares agregando traços e hábitos culturais como uma ação pensada às cidades que sofreram processos de urbanização ou com o êxodo rural que ocorria, principalmente, entre meados das décadas de 80 a 90. Em Blumenau/SC, por exemplo, sacrificam-se, assim, os restos autênticos do passado operário e industrial da cidade por uma decoração alemã fictícia, mais fácil de vender aos visitantes. No litoral de Santa Catarina, o boom do turismo ainda não sufocou completamente as paisagens urbanas da época colonial ou do século XIX, mas o perigo é ameaçador. Em Florianópolis/SC, por exemplo, a iminente e dramática verticalização somada aos aterros marítimos destrói a paisagem natural. Através do entusiasmo pelos belos bairros, na cidade, ou através do turismo em outros lugares, a paisagem é geradora de valor mercantil. Entram em jogo grandes interesses imobiliários. Promotores e agências de turismo se beneficiam de ações de embelezamento e sob a influência dos interesses turísticos, criam-se, frequentemente, cenários sem verdadeiras raízes locais (CLAVAL, 2014), ora contestáveis.

Nesse cenário destacam-se as “festas típicas” que intentam por buscarem um passado distante capazes de produzirem um espetáculo de cultura que se revela ao turista, portanto, como “autêntico”.  O turista, com seu olhar, comprometido, não se surpreende, apenas se extasia diante da luminosidade dos cenários bem montados prometidos pela propaganda, nos quais não há o que decifrar, porque o que é pra ser visto, já está exposto nos signos e ícones que formam a representação, legitimando o “artificial” como “real”. O encontro com a imaginação é suscitado por todos os sentidos. Um desfile, histórico, presentifica o passado como num texto de História. Mulheres e homens, idosos, adultos, jovens, adolescentes crianças e bebês transformam seus corpos em “manequins”, vestidos não só com a indumentária típica da cultura, mas também com os papéis dos sujeitos da história local, como num museu de cera. O desfile se integra à cidade revestida pelos emblemas culturais. (BAUER, 2011b)

Um exemplo a ser observado é a cidade de Nova Veneza/SC, munício emancipado de Criciúma/SC em 1958. A região sofreu o processo de colonização de italianos provenientes de região de Veneza/Itália e tem exaustivamente reforçado sua ligação histórica e cultural com os antepassados. O espetáculo Carnevale de Veneza, famosa festa dos belos trajes e máscaras, traz à tona o modo forçoso como se criam essas espetacularizações das tradições. Inventá-las significa criar rituais e regras que busquem traçar uma continuidade com o passado, criando uma memória que funciona como um estoque de lembranças. Nem tudo que a “tradição inventada” abarca é realmente passado; várias de suas manifestações são recentes, mas surgem para as pessoas como algo há muito existente. (HOBSBAWN, 1984).

Junto ao Carnevale de Veneza encontramos outra forma de expressão e de fortalecimento cultural: a gastronomia. Paralelo ao espetáculo do Carnaval ocorre a Festa da Gastronomia Típica Italiana. A tradição é afirmada pela sociedade quando ela reconhece um produto com algo característico de um determinado grupo étnico (BAUER, 2011a). Durante o evento se apresenta um diversificado cardápio de massas e molhos acompanhados por bom vinho, queijos e defumados.

O retorno a um passado encantado é então vivido pelo espectador, que procura por um espetáculo autêntico, e pelos participantes que, por sua ascendência referenciada na imigração italiana, buscam nas suas festa da gastronomia e carnaval uma forma de realizar sua utopia romântica de volta ao passado. Entram em voga as narrativas populares e as lendas. O plágio arquitetônico.  Mas os românticos reencontram esse passado da mesma maneira que os humanistas haviam reencontrado a Antiguidade: como definitivamente perdida. (BAUER, 2011b) A cidade é bem-cuidada. Ruas limpas e jardins floridos. As fachadas se vestem de verde, vermelho e branco, as cores italianas e  por quatro dias o som oficial é a tarantella. A receita de festa segue o mesmo padrão das demais, seja ela típica alemã, açoriana ou italiana, nesse caso. Eric Hobsbawm menciona a “tradição inventada”, mostrando que estas são reações a situações novas que, ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição.

A cultura, sem uma essência apriorística, é um processo dinâmico, incessante, de construção e reconstrução, de invenção e reinvenção. O Carnevale de Veneza e a Festa da Gastronomia Típica Italiana, uma tradição inventada, criou uma cidade para ser vendida enquanto imagem. No entanto, os “fazedores” da festa prometeram o retorno da história, da tradição e dos costumes. Num trabalho esmerado de recolha dos vestígios culturais, alguns já extintos e outros ainda vivos, de criação de tradições, de montagens de cenários, compuseram a festa da tradição, amalgamando passado, presente e futuro. (BAUER, 2011a)

A História é feita pelas pessoas, a cada dia, cheia de encruzilhadas, mesmo que não gostemos, pode ser confortador ao concluir-se que nada está traçado como destino. São puras invencionices ! Parabéns a todos de Nova Veneza/SC que tão bem se organizaram para receber os mais de 80mil visitantes nesses dias de festa. E pra quem quiser saber um pouco mais, confira fotos do evento, clicando aquiArrivederci!

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Referências:

CLAVAL, Paul. Prefácio. Trad. Margareth de Castro Afeche Pimenta. In: PIMENTA, Margareth de Castro Afeche; FIGUEIREDO, Lauro César (org.). Lugares: patrimônio, memória e paisagens. Florianópolis: Editora da UFSC. 2014.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, Vértice, 1990.

HOBSBAWM, Eric & RANGER Terence (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.

BAUER, Jonei. A invenção da tradição. 2011a

BAUER, Jonei. Kuche (cuca) – um bolo alemão? 2011b

Jonei Bauer
O texto acima é de inteira responsabilidade de Jonei Bauer, não expressando necessariamente a opinião do Portal do Rancho. Saiba mais sobre o autor.

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